domingo, 22 de abril de 2012

DESCOBRIMENTO DO BRASIL

O porto seguro de Cabral em Alagoas

Fábio Costa
Jornalista




Nem a Bahia nem o Rio Grande do Norte. As primeiras terras brasileiras avistadas pela esquadra de Pedro Álvares Cabral no dia 22 de abril de 1500 teriam sido, na verdade, as do litoral sul alagoano, mais precisamente as falésias de Coruripe. A tese é defendida por vários estudiosos, entre eles Jayme de Altavilla, em seu livro “História da Civilização Alagoana”, editado pela primeira vez em 1938.
Altavilla – que chegou a expor sua tese durante uma conferência nacional de institutos históricos e geográficos, em 1940 – se baseia nos relatos do navegador holandês Alexander von Humboldt, segundo o qual as primeiras terras avistadas por Cabral estavam a 10 graus de latitude sul, o que corresponde às atuais regiões de Coruripe, Jequiá, Poxim e Barreiras. O monte arredondado avistado pelos navegantes e batizado como “Monte Pascoal” seria a serra da Naceia, em Anadia. Do local é possível ter uma vista grandiosa do mar, segundo os moradores.
A tese alagoana é reforçada pelas descrições da nova terra contidas na carta de Pero Vaz de Caminha ao então rei de Portugal, D. Manuel. Num dos trechos, o escrivão oficial da esquadra relata … “que o capitão passou o rio, com todos nós outros, e fomos até uma lagoa grande de água doce, que está junto com a praia, porque toda aquela ribeira do mar é apanhada por cima, e sai a água por muitos lugares”. Para Altavilla, o rio de que trata Caminha é o Coruripe. No caso da lagoa grande, seriam as diversas lagoas localizadas na foz do rio Poxim ou mesmo a lagoa do Jequiá, que está ligada ao mar por um rio-canal e é de fácil acesso.
Em outro trecho da carta, Caminha diz que “a terra traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, outras brancas”. O estudioso alagoano entende essa descrição como as barreiras de Jequiá. Para o historiador e professor da Ufal João Ribeiro Lemos, entretanto, a descrição combinaria melhor com as barreiras do povoado Barreiras.
Altavilla afirma que a topografia de Coruripe é a mesma descrita na carta de Caminha e, mais para o sul, encontra-se a enseada do Pontal de Coruripe, o provável ancoradouro da esquadra de Cabral e onde teria havido o primeiro contato dos portugueses com os nativos brasileiros.

Evidências estão na carta de Caminha

Na opinião de alguns estudiosos, nem em Ilhéus, nem em Porto Seguro, ou nem mesmo em toda a costa baiana, é possível encontrar as “barreiras altas e avermelhadas”, um monte muito alto e redondo com terras chãs ao sul ou os rios e lagoas que constam na história oficial do Brasil.
Para os que defendem a tese alagoana, a paisagem descrita por Caminha seriam, na verdade, as falésias (barreiras avermelhadas e brancas) de Coruripe, São Miguel dos Campos, Gunga e Barra de São Miguel, todas em Alagoas, vistas do mar que banha a costa alagoana. Até mesmo o pesquisador potiguar Lenine Pinto – que defende a tese segundo a qual Cabral teria chegado primeiramente ao Cabo de São Roque, no Rio Grande do Norte –, admite que a hipótese de Coruripe não pode ser descartada. Para Lenine, apenas o sul da Bahia estaria completamente fora de questão.
Outra evidência que depõe contra a versão baiana do Descobrimento é o fato de que na região de Porto Seguro não existe nenhuma lagoa de água doce. No local, há apenas três pequenas lagoas salgadas, cuja comunicação com o mar só ocorre nas marés altas.
Ao descrever as grandes barreiras vermelhas e brancas, Caminha afirma que “a terra por cima toda chã e muito cheia de arvoredos (…) será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa (…) De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa”. A extensão citada corresponde a um trecho de 100 a 140 quilômetros e é praticamente a distância entre a Praia do Gunga e o Pontal de Coruripe, no Miaí. São 110km de praias, onde se podem ver as “barreiras altas, umas vermelhas, outras brancas e muito plana e muito formosa”.
Segundo o historiador Max Justo Guedes, na obra “A Viagem de Pedro Álvares Cabral”, o navegador dirigia-se a noroeste quando avistou um “grande monte, muito alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos”. Considerando-se tal relato como o que de fato ocorreu, não seria possível avistar serras ao sul do Monte Pascoal na Bahia. Visto de noroeste ou de oeste, o Pascoal surge com um monte isolado, sem que apareçam as tais “serras mais baixas”, nem as barreiras altas.

A beleza dos caetés

“Estou convencido de que o primeiro ponto de terra avistado pela esquadra portuguesa foi Coruripe, onde Cabral entrou com os navios para pegar água e onde ocorreu o primeiro contato com os nativos brasileiros”, afirma o professor João Ribeiro Lemos. Ele explica que o Pontal de Coruripe é defendido por arrecifes, mas tem aberturas por onde passam as embarcações. “É possível que a esquadra tenha descansado na enseada do Pontal do Coruripe e pelo menos a nau despensa, que levava os mantimentos, entrou no rio Coruripe para pegar água e lenha”, diz Lemos.
Segundo ele, nas Barreiras, em cima de uma colina que se derrama sobre o mar, existe um lugar chamado “Espia Grande”, que oferece uma vista deslumbrante. Lá, os caetés tinham sua aldeia e vigiavam o mar. De acordo com notas do visconde de Porto Seguro, em seu livro “História Geral do Brasil”, os caetés eram os mais famosos navegadores das costas brasileiras. Faziam embarcações para 15 guerreiros com folhas de peri-peri (uma espécie de junco) e com elas desafiavam os mares. Consta que chegavam por mar à Bahia e a Pernambuco. O segredo dessa técnica de construção de barcos nunca foi desvendado.
Na obra sobre a história de Coruripe, João Ribeiro Lemos afirma que o primeiro contato entre os portugueses e os caetés ocorreu na foz do rio Coruripe (ou Corugip, na versão dos nativos), onde entrou a nau-despensa para se reabastecer. Há relatos de que a água usada a bordo já estava apodrecida, a ponto de dois índios a quem os marujos ofereceram água terem se recusado a bebê-la.
“Os caetés eram criaturas de rara beleza, de corpo forte e bem proporcionado, e certamente impressionaram Pero Vaz de Caminha, pela forma como ele os descreve em sua famosa carta”, ressalta Lemos. Os nativos ocupavam a região da atual Coruripe e se estendiam pelo território alagoano. Eles tinham estatura mediana, eram robustos e entroncados, de olhos pequenos de coloração negra, nariz meio achatado, boca grande e cabelos grossos e pretos. A pele tinha cor de folha seca.
Lemos afirma que também foi em Coruripe que os portugueses encontraram o pau-brasil. Na época do Descobrimento, as matas de Coruripe estavam cobertas desse tipo de madeira, cobiçada em toda a Europa para uso nas tinturarias, fabrico de móveis e construção. Segundo ele, há alguns anos foi descoberta no município uma mata intacta da árvore nativa, e a Usina Coruripe descobriu uma mata imensa de pau-brasil, com árvores de 25 metros de altura e até 80 centímetros de diâmetro. “Possivelmente são filhas da mata primitiva do descobrimento”.

Influência baiana na versão oficial

Para João Ribeiro Lemos, uma pesquisa mais profunda poderia trabalhar a tese de que o o Descobrimento do Brasil começou em Alagoas. Por enquanto, as únicas referências existentes se encontram em autores alagoanos, como Jayme de Altavilla. “A história dessa época é pouco pesquisada, e os atuores se limitam a copiar o que já foi escrito anteriormente”, afirma o professor.
Segundo ele, a História do Brasil sempre foi uma grande “montagem” escrita por encomenda, e a Bahia sempre teve grande influência na vida social, econômica e política do Brasil.
“Durante muito tempo, Salvador foi a capital do Brasil, e os historiadores e escritores estabeleceram que o primeiro ponto avisado pela esquadra portuguesa foi a baía de Cabrália, em Porto Seguro”, justifica. “Compete ao historiador perseguir a verdade histórica e em cima de documentos autênticos desestruturar o estabelecido”.

** Publicado originalmente em O Jornal, edição do dia 13 de abril de 2000


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